Transtorno de pânico nem sempre tem uma causa, afirma Antonio Egidio Nardi em entrevista ao O Globo

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Especialista destaca fatores genéticos, processos inflamatórios no cérebro e desmistifica ideias comuns sobre ansiedade e depressão

Em entrevista ao jornalista Gustavo Leitão, publicada no último domingo (12) no jornal O Globo, o psiquiatra Antonio Egidio Nardi, uma das maiores referências mundiais em síndrome do pânico, trouxe reflexões importantes, atuais e esclarecedoras sobre ansiedade, depressão e os caminhos do tratamento.

Recém-empossado presidente da Academia Nacional de Medicina (ANM), Nardi chama atenção para um ponto que ainda gera muita confusão: o mito de que transtornos de ansiedade, como o pânico, sempre tenham uma causa emocional identificável.

Pânico: um quadro intenso e inesperado

Segundo o especialista, o transtorno de pânico é uma manifestação aguda da ansiedade. As crises surgem de forma repentina, mesmo quando a pessoa está aparentemente bem.

“A pessoa está bem, distraída, estudando, trabalhando, dormindo, e de repente tem um ataque. Em geral, ele dura em torno de 20 a 30 minutos. Os primeiros dez são os piores. A pessoa tem falta de ar, tremor, onda de frio, de calor, tontura, palpitação, pressão no peito e a sensação de que vai morrer, de que está perdendo o controle”, explicou.

Esses episódios costumam durar cerca de 20 a 30 minutos, sendo os primeiros mais intensos, e frequentemente levam a pessoa a procurar emergências médicas, acreditando estar diante de um problema físico grave. Com o tempo, o medo de novas crises pode levar à evitação de lugares e situações, evoluindo, em casos mais graves, para o isolamento.

Nem sempre há um “gatilho”

Um dos pontos mais relevantes da entrevista é a desconstrução da ideia de que sempre existe uma causa psicológica clara para o transtorno. De acordo com Nardi, não há evidência científica consistente de que o pânico esteja necessariamente ligado a um gatilho emocional específico. Em vez disso, ele destaca:

  • Fatores genéticos importantes (histórico familiar aumenta o risco)
  • Processos inflamatórios no cérebro, ainda não totalmente compreendidos
  • Alterações no funcionamento de neurotransmissores

Essa visão ajuda a reduzir a culpa e a autocrítica de quem vive com o transtorno, muitas vezes pressionado a “descobrir a causa” do que sente.

Tratamento: combinação é o caminho

O tratamento mais eficaz, segundo o psiquiatra, costuma envolver uma abordagem combinada de medicamentos (como antidepressivos e ansiolíticos), psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental (TCC), e atividade física, considerada por ele “a melhor coisa para o cérebro”. Além disso, técnicas de respiração podem ajudar tanto na prevenção quanto no manejo das crises, ao sinalizar ao corpo que a situação está sob controle.

Nardi alerta que os medicamentos psiquiátricos não curam, mas controlam os sintomas. Eles representam um grande avanço da medicina, mas não devem ser vistos como soluções isoladas ou milagrosas, especialmente diante de promessas exageradas de “pílulas da felicidade”.

Sobre um suposto excesso de medicalização desses transtornos, Nardi afirma que o medicamento psiquiátrico é um avanço da medicina:

“Até a década de 1950, ou seja, pouco mais de 75 anos atrás, não existia nenhum medicamento eficaz em psiquiatria. Era um horror: as pessoas eram hospitalizadas, às vezes pela vida inteira. Hoje a psiquiatria é uma especialidade ambulatorial. Mesmo em casos graves, como um surto psicótico, a pessoa é internada por dois ou três dias. Então, os medicamentos mudaram a assistência psiquiátrica no mundo inteiro.”

Depressão e cérebro: além da serotonina

Outro ponto importante abordado por Nardi é a simplificação comum de que a depressão seria apenas uma “falta de serotonina”. Segundo ele, o que ocorre é mais complexo: há um mau funcionamento dos neurotransmissores associado a processos inflamatórios cerebrais, que podem ser modulados com tratamento adequado.

Nardi também abordou temas cercados de preconceito, como o eletrochoque, hoje chamado de eletroconvulsoterapia. Apesar da imagem negativa, o tratamento, segundo o especialista, ainda é o mais eficaz para casos graves de depressão resistente. Questionado sobre propostas para tratar a depressão resistente testadas nos últimos anos, como o marca-passo cerebral e a terapia com psicodélicos, não demonstrou empolgação:

“O marca-passo ainda está em nível de pesquisa. É um tratamento invasivo, cirúrgico, e não existe resposta garantida, não acredito que vá se popularizar. Quanto aos psicodélicos, eles estão na moda, mas nós já tivemos essa onda antes, na década de 1960. São substâncias que muitas vezes trazem apenas um benefício passageiro e têm muito risco de efeito colateral psicótico.”

Leia a entrevista completa

Imagem: reprodução O Globo

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